“Maldita” Escola Pública

Em 23 de Fevereiro de 2003 Maria Filomena Mónica escrevia isto, em 4 de Julho de 2008, escreveu isto.

O Problema de Maria Filomena Mónica não é com este Ministério, mas sim  com a existência da Escola Pública, que dificulta a elitização do Ensino Superior para uma pequena minoria de privilegiados do ensino privado.

Uma resposta to ““Maldita” Escola Pública”

  1. afonso pedro barbosa Says:

    Nao deixa de ser interessante uma pessoa manter-se informada do que “por ai vai”. Mesmo quando se tem uma percepçao forte e conformadamente enraizada, como é o meu caso, sobre o “para onde isto vai”, às vezes é impossivel nao ficar surpreendido ao descobrir “onde isto jà vai”. A leitura do artigo no Publico “Os testes de Português podiam ser substituídos por uns papeluchos como os do Totobola ” de Maria Filomena Monica a 04 de Julho de 2008, obrigou-me a lguma reflexao sobre este assunto, que nao adivinhava estar ja tao avançado.

    A prodigalidade legislativa do Governo, empurrado pelo monstro europeu, jà nao é surpresa para ninguém, mas a velocidade com que ela se antecipa à propria realidade nao deixa de ser impressionante. No caminho da degradaçao cultural e linguistica que se tem vindo gradualmente a desenvolver no todo da sociedade, o poder – nao suficientemente contente com o facto que ja nao se encontre hoje em dia ninguem, a bem dizer, com menos de 25 ou mesmo 30 anos com quem se possa ter uma conversa interessante, numa palavra, que possua uma linguagem oral complexa – decidiu finalmente deixar-se de arcaismos e de visoes romanticas sobre essa “tradiçao humanistica” de que fala a autora do artigo e assumir a liderança do processo: daqui a 15 ou 20 anos, nao so os jovens nao saberao falar reflectidamente, mas nem mesmo poderao jà ler ou escrever dessa forma. O que é impressionante é que estes saudosistas d’outros tempos, que falam da “gloria da cultura ocidental”, nao viram (nao quiseram ver!) que essa cultura esta morta e por enterrar (nos museus, nas bibliotecas), e que o seu cadàver, apesar de assombrar ainda como um espectro os tempos modernos nao pode contudo – e talvez infelizmente (confesso) – ser ressuscitado. Esta elite intelectual que tendo lido Orwell nao o soube “perceber” (identificar, como diria um historiador burocrata) na realidade, antes que essa mesma realidade lho espetasse nas trombas: ninguem se indignou quando a ortodoxia se apoderou das ciencias naturais porque elas sao exactas (ainda um dia me haveriam de explicar em que é que isso torna o facto mais aceitavel); depois quando através da porta da “exactidao” e pela imposiçao da matematica (o calculo, na analise; a estatistica, na grande efabulaçao da contabilidade nacional) ela se emparou da economia e de seguida, pouco a pouco, e pelas mesmas travessas, das ciencias socias (se bem que a historia tenha sido, de um certo modo, precisemos, poupada) – poe-se agora a bradar aos ceus porque essa mesma ortodoxia quer penetrar, atraves do ensino, na linguagem e no pensamento. Um vislumbre do grande delirio orwelliano, duma lingua construida burocraticamente, apresenta-se-nos jà no real e nos fazemos um escabeche. Este infantilismo nao ajuda. Nao ajuda porque distrai e priva a atencao do essencial: a intromissao na lingua, como instrumento ultimo de controle, é a consequencia logica da evoluçao duma ortodoxia à qual todo os outros espaços foram deixados livres, e que os tendo mais ou menos, segundo o caso, preenchidos, se volta para a origem mesma do pensamento. Privando a atençao deste facto essencial esta analise é muito “pertinente” mas nao passa dos jornais, nao remete para as suas causas e nao tira consequencias, fica-se, morna e impotente, por uma denuncia simplista do secretario de estado e dos seus anoes, que nao sao responsaveis pela situaçao historica actual; numa palavra, restringe-se ao jogo mediatico.
    Orwell, observandoo nazismo e o comunismo, compreendeu que um povo privado de cultura e de historia, estaria à merce da opressao mais esmagadora e da tirania mais humilhante. Esta é a liçao do seculo XX, ele teve o merito de a descrever tao rapidamente quanto humanamente possivel. Herman Hesse previu a guerra (stephenwolve), mas talvez nem suspeitasse da possibilidade de um tal totalitarismo. Orwell foi um visionario, e talvez estivesse certo quando suponha que um povo privado nao so de historia e de cultura, mas tambem de linguagem propria, tornar-se-ia entao vitima de uma tirania certamente eterna porque nao questionavel.
    O problema, com o totalitarismo moderno é que ele nao tem um rosto cruel. Esta aparencia simpatica de “herdeiro do liberalismo” (é-o? nao o é?; questoes muito interessantes mas que deixaremos para uma outra ocasiao) tem-no escamoteado, mas à medida que ele se desenvolve e fortifica vai ficando mais visivel, porque a vida vai ficando mais insuportavel. E acima de tudo, ha que tirar as consequencias, de dizer alto e bom som que é de totalitarismo que se trata (em Portugal e em Bruxelas) e de nao fingir acreditar que a acçao do governo nao é consequente com a sua politica e com a realidade social actual : quando Maria Filomena Monica se faz de indignada porque estes jovenzinhos assim formados nao arranjarao emprego, revela toda a naividade do tipo de pessoas que tem a destreza intelectual para analisar a realidade mas, por um defeito emocional, por uma identificaçao romanticamente idealizada a essa “civilizaçao ocidental” que eles creem ainda a mesma da sua juventude, nao sao capazes de a enfrentar tal como ela se lhes apresenta, refugiando-se assim nesse tipo de subterfugios. Se, Maria Filomena Monica, acha mesmo que estas criancinhas idiotas que estao a sair da escola como da linha de montagem, nao vao arranjar emprego; se acha mesmo que eles estarao desactualizados no seu tempo, gostaria de lhe perguntar se jà se deu ao trabalho de ir ao centro de emprego?, ou simplesmente de consultar uma pagina de internet duma qualconque agencia de trabalho temporario? Se o fizesse aperceber-se-ia que para os empregos, os ateliers de formaçao e todas essas inutilidades que por ai andam, nao saber falar, ler e escrever duma forma reflectida, numa palvra nao saber pensar, nao é senao uma vantagem.

    P.S.: Peço desculpa pela acentuaçao mas estou a escrever do estrangeiro.

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